Imagine sua história como uma linha do tempo. Quantos altos e baixos você já viveu? A verdade é que essa linha não é tão linear quanto gostaríamos. Inúmeros fatores influenciam constantemente nossas jornadas, tornando-as únicas e complexas. Mas e se pudéssemos ser responsáveis por um pequeno estímulo capaz de impactar positivamente uma vida inteira? E se criássemos oportunidades para minimizar vulnerabilidades e, de alguma forma, mudássemos uma trajetória?

Acreditamos que isso é possível. Desde 2003, apoiamos projetos inspiradores com o objetivo de incentivar o protagonismo social, gerando impacto hoje para que versões mais felizes dessas histórias possam ser escritas no futuro.


Hoje, vivemos em tempos de hipermodernidade, onde a tecnologia desempenha um papel central. No entanto, como aponta Julieta Jerusalinsky, psicanalista e mestre em Psicologia Clínica pela PUC São Paulo, a inteligência artificial e os algoritmos podem tanto facilitar nossas vidas quanto produzir novos problemas que revisitam velhos impasses.

Em sua palestra no Café Filosófico CPFL, intitulada “Por qual janela a criança olha o mundo?” , Jerusalinsky destaca que as tecnologias, quando utilizadas de maneira inadequada, podem levar à medicalização da vida e à patologização da infância. Ela alerta para o risco de nos tornarmos instrumentos dos próprios instrumentos, perdendo a capacidade de questionar e refletir sobre nossas ações.


Jerusalinsky enfatiza que, em tempos de excesso de informações e respostas prontas, é crucial manter o hábito de questionar. “Interrogar-se é central”, afirma. “Não se trata de ter certeza absoluta, mas também não é o mesmo que não saber nada.”

Ela exemplifica isso com o uso de dispositivos eletrônicos por crianças. Muitas vezes, pais entregam celulares ou tablets para acalmar seus filhos, sem considerar o impacto que esses dispositivos podem ter no desenvolvimento emocional e cognitivo. “O celular pode estar no lugar de olhar, de conversar, de brincar”, diz. “É preciso perguntar: no lugar de quê isso está?”


No início da vida, as crianças ainda não estão plenamente estruturadas. Elas precisam construir significados a partir de experiências reais, como o brincar, o desenhar e o inventar histórias. Essas atividades permitem que elas transponham o real para o simbólico e o imaginário, articulando sua subjetividade.

No entanto, quando as crianças são expostas precocemente às telas, correm o risco de perder essas oportunidades de estruturação. “As intoxicações eletrônicas são um patógeno da infância”, alerta Jerusalinsky. “Elas impedem experiências estruturantes e facilitam adoecimentos.”


Outro ponto crítico abordado por Jerusalinsky é a explosão de diagnósticos psiquiátricos na infância. Transtornos como TDAH e autismo têm sido diagnosticados em números alarmantes, muitas vezes sem uma análise profunda do contexto. “O problema dos checklists é que eles pretendem fazer com que o campo da saúde mental corresponda a outros campos da medicina”, explica. “Mas não existem fatores patognomônicos claros para doenças mentais.”

Ela ressalta que muitos diagnósticos são resultado de uma régua que mudou, além de pressões sociais e econômicas. “Precisamos cultivar o que é estruturante para a infância: o brincar, o conversar, o conviver com o outro no dia a dia.”




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